{"id":3766,"date":"2008-03-25T13:23:27","date_gmt":"2008-03-25T13:23:27","guid":{"rendered":"https:\/\/portosma.com.br\/?p=3766"},"modified":"2023-02-05T01:03:21","modified_gmt":"2023-02-05T01:03:21","slug":"trem-de-passageiros-da-companhia-vale-do-rio-doce-um-comboio-de-muitas-historias-de-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portosma.com.br\/index.php\/2008\/03\/25\/trem-de-passageiros-da-companhia-vale-do-rio-doce-um-comboio-de-muitas-historias-de-vida\/","title":{"rendered":"Trem de Passageiros da Companhia Vale do Rio Doce: um comboio de muitas hist\u00f3rias de vida"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Por Carlos Andrade, da Reda\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-3769 size-full\" src=\"https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/TPASSAG-02.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/TPASSAG-02.jpg 350w, https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/TPASSAG-02-300x193.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/> Cinco horas da manh\u00e3 de uma segunda-feira especial na vida de Dona Maria Jos\u00e9. Neste dia, um qualquer da segunda quinzena do m\u00eas de mar\u00e7o, como tem feito regularmente nos \u00faltimos dez anos, visitar\u00e1 a filha e os netos que moram na cidade maranhense de A\u00e7ail\u00e2ndia. Vai, finalmente, vencer a segunda etapa de uma viagem que come\u00e7ou de \u00f4nibus em sua cidade natal Bacabal, a 290 kms de S\u00e3o Lu\u00eds. Depois de uma parada estrat\u00e9gica na capital maranhense ir\u00e1, como centenas de outras pessoas, embarcar no Trem de Passageiros da Companhia Vale do Rio Doce.<\/p>\n<p>Ao chegar na Esta\u00e7\u00e3o Ferrovi\u00e1ria do Anjo da Guarda por volta das 7h15m, descobriu que, como ela, uma quase multid\u00e3o tinha acordado naquela manh\u00e3 com igual prop\u00f3sito: embarcar na primeira das 15 paradas existentes de um longo percurso at\u00e9 a parada final, a cidade de Parauapebas, no Par\u00e1, a exatos 861 km do in\u00edcio da viagem.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, naquela manh\u00e3, a felicidade dela e de todas as outras pessoas n\u00e3o estaria completa se antes, na mesma madrugada, duas dezenas de pessoas de diferentes empresas n\u00e3o tivessem se dirigido ao mesmo destino para garantir o conforto, o funcionamento e abastecimento estrat\u00e9gico do comboio.<\/p>\n<p>Um a um. Maquinista, t\u00e9cnico de eletro-eletr\u00f4nica do canal futura, chefe do trem, coordenador, comiss\u00e1rios, apoio e respons\u00e1veis pela lanchonete assumem seus postos e, s\u00f3 ent\u00e3o, Dona Maria Jos\u00e9, 65 anos, pode viajar sossegada. Pela previs\u00e3o dos controladores de viagem, vai ver a filha depois da cinco da tarde. Antes, como seu destino \u00e9 a cidade guzeira de A\u00e7ail\u00e2ndia, ainda no Maranh\u00e3o, precisa vencer 517 km de ferrovia e cruzar 10 munic\u00edpios.<\/p>\n<p>Oito horas da manh\u00e3. Depois de engolir em seus vag\u00f5es aquele povar\u00e9u todo, uma prosaica ordem do Chefe do Trem faz acionar os potentes motores da locomotiva e, lentamente, a in\u00e9rcia \u00e9 vencida e tudo se inicia. Para Daniel Nakahara de Oliveira, a quem cabe, no primeiro trecho da viagem, dar a ordem de todas as partidas, s\u00f3 o percurso n\u00e3o muda nunca. &#8220;A cada viagem as situa\u00e7\u00f5es e as pessoas garantem a diferen\u00e7a entre um trecho e outro&#8221;, diz, sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o em disfar\u00e7ar o orgulho pelo cargo que exerce.<\/p>\n<p>E muitas s\u00e3o as hist\u00f3rias contadas e ouvidas durante as mais de 16 horas que duram uma viagem completa de S\u00e3o Lu\u00eds, no Maranh\u00e3o, a Parauapebas, no Par\u00e1. Apesar da torre de babel de sotaques, todos se entendem: cariocas, capixabas, cearenses, baianos, paraenses, piauienses, paulistas e maranhenses. Isso para n\u00e3o falar de franceses, italianos, americanos, japoneses, alem\u00e3es&#8230;<\/p>\n<p>Os maranhenses, no entanto, merecem um cap\u00edtulo especial. Assim como a bacabalense Maria Jos\u00e9, o comboio segue viagem levando representantes de todos os munic\u00edpios. A grande maioria de S\u00e3o Lu\u00eds, Santa In\u00eas, A\u00e7ail\u00e2ndia e Imperatriz. \u00c9 um formigar de gente indo e vindo nos corredores dos vag\u00f5es, na lanchonete e conversando ou dormindo nas poltronas. E, se \u00e9 verdade que se conversa bastante no Trem de Passageiros, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que se dorme mais ainda. Os opostos est\u00e3o ali. Enquanto os mais velhos se acomodam e se encolhem, as crian\u00e7as deixam liberar todas as energias at\u00e9 o desmaio final sob forma de sono \u2013 o que nem sempre acontece &#8211; no colo de algum adulto.<\/p>\n<p>A primeira parada \u00e9 em Vit\u00f3ria do Mearim, seguida de Arari, Santa In\u00eas, Alto Alegre do Pindar\u00e9, Mineirinho, Auzil\u00e2ndia, Altamira, Presa de Porco, Nova Vida, A\u00e7ail\u00e2ndia, S\u00e3o Pedro da \u00c1gua Branca, Marab\u00e1, Itain\u00f3polis e Parauapebas. Em cada uma delas, as 88 poltronas dos vag\u00f5es s\u00e3o preenchidas com hist\u00f3rias de gente, em alguns casos, at\u00e9 de animais. \u201cNo come\u00e7o, quando comecei usar o trem para ir pra Marab\u00e1 era um inferno. At\u00e9 porco eles tentavam embarcar\u201d, relembra seu Ant\u00f4nio, 65 anos, morador de Presa de Porco, com a autoridade que usa esse tipo de transporte desde os primeiros anos de sua opera\u00e7\u00e3o. Hoje, como explica Daniel Nakahara, n\u00e3o transportamos mais esse tipo de animais. Exce\u00e7\u00e3o para c\u00e3es e gatos, &#8220;desde que devidamente acomodados em caixas pr\u00f3prias e despachados como carga no vag\u00e3o destinado aos volumes\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Daniel destaca ainda algumas conquistas importantes do sistema, como a seguran\u00e7a \u2013 nunca houve um assalto a bordo \u2013 e a rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a que existe entre as equipes que comandam o trem e os passageiros usu\u00e1rios. \u201cA gente conversa muito com as pessoas e mesmo aquelas rodas que se formam no cais \u2013 \u00e1rea de vista livre entre um vag\u00e3o e outro \u2013 costumam discutir esse tipo de rela\u00e7\u00e3o de puro companheirismo que acabamos experimentando durante as muitas horas que passamos juntos\u201d, explica o jovem Chefe de Trem.<\/p>\n<p>Como uma viagem completa de ida \u00e9 feita em per\u00edodos superior a 16 horas, as equipes que trabalham s\u00e3o obrigadas a um calend\u00e1rio de revezamento. S\u00e3o dois chefes de trem e duas equipes de apoio. A troca acontece no Km 384, no munic\u00edpio de Nova Vida. S\u00f3 no caso do maquinista a rotina \u00e9 outra. Um leva o trem de S\u00e3o Lu\u00eds at\u00e9 Nova Vida; outro at\u00e9 Marab\u00e1, Km 738; e um terceiro faz a \u00faltima perna na viagem at\u00e9 a cidade de Parauapebas, no estado do Par\u00e1, a 861 km do ponto de partida.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-3768 alignleft\" src=\"https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/TPASSAG-01-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/TPASSAG-01-300x225.jpg 300w, https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/TPASSAG-01.jpg 350w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Para um viajante de espa\u00e7os t\u00e3o longos &#8211; a primeira foi h\u00e1 mais de dez anos &#8211; como o rep\u00f3rter, duas novidades chamaram a aten\u00e7\u00e3o: a presen\u00e7a do vag\u00e3o chamado de sal\u00e3o e a aus\u00eancia do vag\u00e3o enfermaria. Nos dois casos as explica\u00e7\u00f5es est\u00e3o na ponta da l\u00edngua: O vag\u00e3o sal\u00e3o foi criado para nos permitir acomodar melhor passageiros portadores de defici\u00eancias e proporcionar maior flexibilidade de embarque nos pontos de parada \u2013 onde n\u00e3o existe esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria. Com o aumento do n\u00famero de trens na linha principal \u2013 24 em m\u00e9dia &#8211; o tempo de parada do de Passageiro deve ser cumprido rigorosamente. \u201cCom o carro sal\u00e3o, todos embarcam, o trem segue seu curso e os comiss\u00e1rios de forma tranquila, podem emitir os bilhetes de passagem de acordo com os trechos de destino de cada um\u201d, explica Daniel Nakarara. (foto em destaque).<\/p>\n<p>No caso do carro ambulat\u00f3rio, ou vag\u00e3o enfermaria, a sua retirada tem uma explica\u00e7\u00e3o no m\u00ednimo curiosa. Segundo a Chefe de Trem Dauglas \u2013 a \u00fanica mulher a exercer essa fun\u00e7\u00e3o em todo sistema de passageiros da CVRD \u2013 houve um desvio de fun\u00e7\u00e3o que gerou problemas s\u00e9rios durante as viagens. \u201cAs pessoas, conscientes de que havia um servi\u00e7o m\u00e9dico a bordo, e, de acordo com a patologia, recebiam at\u00e9 rem\u00e9dios de gra\u00e7a, come\u00e7aram a pegar o trem entre um trecho e outro apenas para se consultarem. Tivemos casos de doentes graves que eram embarcados por seus familiares com o \u00fanico objetivo de conseguir um atendimento m\u00e9dico\u201d, afirma ela.<\/p>\n<p>No cargo h\u00e1 quatro anos, Dauglas \u2013 o feminino de Douglas, explica, para memorizar o nome \u2013 gosta do que faz e j\u00e1 viveu muitas hist\u00f3rias nessa m\u00e1quina de levar e trazer gente. Ela costuma dizer que o trem passa mas deixa sempre uma hist\u00f3ria de vida nas comunidades que atravessa nos seis dias da semana que sobe e desce os 861 km da estrada de ferro Caraj\u00e1s. \u201cUma vez um passageiro veio reclamar exaltado que, naquela determinada parada, eu, por ser mulher, investida nessa condi\u00e7\u00e3o de Chefe do Trem, havia estacionado o comboio mais afastado da rampa de descida do que na esta\u00e7\u00e3o anterior\u201d. Perguntada sobre a resposta para uma interpela\u00e7\u00e3o t\u00e3o sem prop\u00f3sito, ela foi lac\u00f4nica: \u201cpedir desculpa e prometi que da pr\u00f3xima vez teria mais cuidado\u201d.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 apenas uma das muitas hist\u00f3rias que atropelam a rotina de uma viagem onde at\u00e9 as curvas s\u00e3o do conhecimento de todos. No in\u00edcio, quando o Trem de Passageiros entrou em opera\u00e7\u00e3o, em 1986, houve de tudo a bordo, at\u00e9 mesmo nascimentos de beb\u00eas. Hoje, sem os profissionais de sa\u00fade retirados juntamente com o vag\u00e3o enfermaria, o acesso de gr\u00e1vidas s\u00f3 \u00e9 permitido at\u00e9 o s\u00e9timo ou oitavo m\u00eas. Fora disso, para o embarque ser autorizado, \u00e9 preciso uma declara\u00e7\u00e3o de um m\u00e9dico garantindo (?) que a passageira\/parturiente n\u00e3o tem a menor possibilidade de entrar em trabalho de parto durante o percurso.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3770 size-full alignleft\" src=\"https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/TPASSAG-03.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"230\" srcset=\"https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/TPASSAG-03.jpg 350w, https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/TPASSAG-03-300x197.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/>E assim, de parada em parada, o Trem de Passageiros da Companhia Vale do Rio Doce segue seu curso. J\u00e1 foi mais pontual. Antes, quando o n\u00famero de trens de min\u00e9rio era menor, havia uma m\u00e1xima que as comunidades acertavam o rel\u00f3gio pela passagem do trem. A log\u00edstica de distribuir tantos vag\u00f5es e tantas locomotivas numa \u00fanica linha em sentidos opostos explica as incomodas espera em p\u00e1tios e esta\u00e7\u00f5es ao longo do percurso. Mesmo assim, os n\u00fameros s\u00e3o impressionantes. Em 2007 transportou 352 mil e 89&nbsp; pessoas, uma m\u00e9dia de 1.300 a cada 24 horas.<\/p>\n<p>Se o Trem de Passageiros da Vale oferece pouco? Se n\u00e3o tem merecido por parte da empresa o mesmo tratamento dos seus primos ricos? Se n\u00e3o \u00e9 visto pela mineradora com a real dimens\u00e3o social que exercer nas comunidades onde cruza? Se min\u00e9rio de ferro d\u00e1 mais lucro que gente? Isso pouco importa. E n\u00e3o cabe, nessa reportagem, esse tipo de questionamento.<\/p>\n<p>O importante, \u00e9 que, sem ele, a hist\u00f3ria da ferrovia de Caraj\u00e1s seria outra. Nada de esta\u00e7\u00f5es, nada de paradas, nada de comunidades. Nada, absolutamente nada de desenvolvimento ou de progresso ou de nichos de gente que antes n\u00e3o passavam de n\u00facleos e\/ou povoados e hoje s\u00e3o chamados de cidades.<\/p>\n<p>Para a maioria das pessoas, sobretudo aquela que lota a classe econ\u00f4mica &#8211; existe a tamb\u00e9m a classe executiva, com ar condicionado bem mais confort\u00e1vel que esta &#8211; o trem trouxe mobilidade, conhecimentos e paisagens muito al\u00e9m de suas pr\u00f3prias janelas. O Canal Futura &#8211; exibido em monitores em todos os vag\u00f5es &#8211; com seus programas educativos como os Di\u00e1rios de Bordo \u00e9 um feliz exemplo dessa expans\u00e3o de cultura e de saber. \u201cMo\u00e7o, se eu lhe disser que tenho aprendido nesse trem coisas que nunca imaginei sequer que existia, o senhor n\u00e3o vai acreditar\u201d, diz, incr\u00e9dulo e feliz Jo\u00e3o Damasceno, 54 anos, nascido no munic\u00edpio maranhense de Ros\u00e1rio, acomodado entre cobertores enquanto espera chegar a sua esta\u00e7\u00e3o de destino, S\u00e3o Pedro da \u00c1gua Branca, no Km 650.<\/p>\n<p>Negar a import\u00e2ncia do trem de passageiros da Vale em termos de ganho social para uma faixa de miser\u00e1veis que se estende por mais de 800 km antes esquecida do mundo, \u00e9 negar a import\u00e2ncia que o trem de min\u00e9rio de ferro \u2013 o primo rico do sistema Caraj\u00e1s &#8211; tem para a balan\u00e7a comercial em termos de exporta\u00e7\u00e3o. E melhor de tudo \u00e9 que o trem n\u00e3o chegou sozinho. Com ele vieram outros projetos sociais de peso, como o Vale Alfabetizar, por exemplo. S\u00f3 no Maranh\u00e3o, em 2007, o projeto matriculou 10 mil alunos que depois de um ano de aulas foram considerados alfabetizados.<\/p>\n<p>O Vale Alfabetizar \u00e9 mantido pela Funda\u00e7\u00e3o Vale do Rio Doce e tem n\u00facleos fixos nos munic\u00edpios de A\u00e7ail\u00e2ndia, Alto Alegre do Pindar\u00e9, Ros\u00e1rio e S\u00e3o Pedro da \u00c1gua Branca. No Brasil, incluindo os estados do Par\u00e1, Esp\u00edrito Santos e Minas Gerais, o programa j\u00e1 alfabetizou mais de 100 mil alunos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-3864\" src=\"https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2008\/03\/TPASS-10.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"377\" srcset=\"https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2008\/03\/TPASS-10.jpg 450w, https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2008\/03\/TPASS-10-278x300.jpg 278w\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil se encontrar no Trem de Passageiro quem n\u00e3o conhe\u00e7a alguma coisa do programa de alfabetiza\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Vale do Rio Doce. \u201cO projeto \u00e9 mais uma a\u00e7\u00e3o social voltada para as pessoas que moram nos munic\u00edpios onde a Vale est\u00e1 presente e visa erradicar \u2013 no caso do Maranh\u00e3o &#8211; o analfabetismo em localidades cortadas pela ferrovia de Caraj\u00e1s\u201d, explica a jornalista Vanessa Tavares, chefe da Assessoria de Imprensa em S\u00e3o Lu\u00eds. Na defini\u00e7\u00e3o macro da empresa, o Vale Alfabetizar contribui para reduzir o analfabetismo em nosso pa\u00eds e atende alunos com idade entre 19 e 90 anos.<\/p>\n<p>Como bem disse uma jovem senhora que falava pelos cotovelos durante a viagem, programas desenvolvidos pela CVRD como o Vale Alfabetizar, a TV a bordo com suas transmiss\u00f5es educativas representam janelas de um mundo que boa parte daquelas pessoas jamais teria oportunidade de enxergar n\u00e3o fosse o trem. E as a\u00e7\u00f5es n\u00e3o se limitam apenas a bordo. Enquanto esperam, nas esta\u00e7\u00f5es principais, como Santa In\u00eas, A\u00e7ail\u00e2ndia e Marab\u00e1, uma equipe de monitores ajuda os passageiros passar o tempo. Dona Valdimira Castro, por exemplo, mesmo ainda n\u00e3o sabendo ler direito &#8211; ou talvez por isso &#8211; ficou encantada ao receber o livreto Passatrem. Ali, enquanto esperava na esta\u00e7\u00e3o de A\u00e7ail\u00e2ndia para iniciar sua viagem de volta a S\u00e3o Luis, pode, com a ajuda de uma volunt\u00e1ria, pela primeira vez em sua vida, fazer uma simples palavras-cruzadas.<\/p>\n<h5>\u201cEu consegui&#8230;Eu consegui\u201d, dizia ela, aos 49 anos, como se houvesse ganho uma medalha ol\u00edmpica.<\/h5>\n<p>E Dona Valdimira n\u00e3o est\u00e1 sozinha nessa felicidade aparentemente simples. Como ela, uma outra personagem entra em cena nessa busca quase imposs\u00edvel de saber entender as letras. Maria do Socorro, de 54 anos, perdeu os movimentos do lado direito do seu corpo, em virtude de uma doen\u00e7a. A paralisia a fez conviver com a dificuldade de locomover-se, e ainda de ler e escrever. Incentivada pelos educadores do Vale Alfabetizar e com o apoio dos parentes, marido, dos sete filhos e vizinhos, a aluna exemplar voltou a estudar. Com muita for\u00e7a de vontade e a necess\u00e1ria ajuda reaprendeu a escrever com m\u00e3o esquerda e voltou a ter gosto pela leitura.<\/p>\n<p>\u00c9 o Trem de Passageiros da Vale do Rio Doce de muitas hist\u00f3rias e de muitas vari\u00e1veis sociais em benef\u00edcio de um estado pobre e de analfabetos como o Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem ele, a Estrada de Ferro Caraj\u00e1s seria, apenas, uma dist\u00e2ncia sem alma.<\/p>\n<p><em>Data da Not\u00ed\u00a3\u00a9a: 25\/03\/2008<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Carlos Andrade, da Reda\u00e7\u00e3o &nbsp; Cinco horas da manh\u00e3 de uma segunda-feira especial na vida de Dona Maria Jos\u00e9. Neste dia, um qualquer da segunda quinzena do m\u00eas de mar\u00e7o, como tem feito regularmente nos \u00faltimos dez anos, visitar\u00e1 a filha e os netos que moram na cidade maranhense de A\u00e7ail\u00e2ndia. 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