{"id":361,"date":"2023-01-07T14:25:18","date_gmt":"2023-01-07T14:25:18","guid":{"rendered":"https:\/\/portosma.com.br\/?page_id=361"},"modified":"2023-01-31T12:05:55","modified_gmt":"2023-01-31T12:05:55","slug":"pagina-da-carta-de-pero-vaz-caminha","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/portosma.com.br\/index.php\/pagina-da-carta-de-pero-vaz-caminha\/","title":{"rendered":"A CARTA DE PERO VAZ CAMINHA"},"content":{"rendered":"<h3><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-356 size-full alignleft\" style=\"font-size: 1rem;\" src=\"https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Pagina-Carta-1.jpg\" alt=\"\" width=\"199\" height=\"274\"> <em><strong><span style=\"color: #993300;\">Em 1\u00ba de maio de 1500, Pero Vaz de Caminha, escriv\u00e3o da armada de Pedro \u00c1lvares Cabral, anunciou ao rei Dom Manuel, de Portugal, o descobrimento de novas terras em 22 de abril e as suas impress\u00f5es sobre a terra e sua gente. A carta, datada de Porto Seguro, sexta-feira de 1\u00b0 de maio de 1500, foi levada a Portugal por Gaspar de Lemos, comandante de um dos navios da frota de desbravadores. Confira o texto completo a seguir.<\/span><\/strong><\/em><\/h3>\n<p>Senhor, posto que o Capit\u00e3o-mor desta Vossa frota, e assim os outros capit\u00e3es escrevam a Vossa Alteza a not\u00edcia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navega\u00e7\u00e3o achou, n\u00e3o deixarei de tamb\u00e9m dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que &#8211; para o bem contar e falar &#8211; o saiba pior que todos fazer! Todavia tome Vossa Alteza minha ignor\u00e2ncia por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui n\u00e3o h\u00e1 de p\u00f4r mais do que aquilo que vi e me pareceu. Da marinhagem e das singraduras do caminho n\u00e3o darei aqui conta a Vossa Alteza &#8211; porque o n\u00e3o saberei fazer &#8211; e os pilotos devem ter este cuidado.<\/p>\n<p>E portanto, Senhor, do que hei de falar come\u00e7o: E digo qu\u00ea:<\/p>\n<p>A partida de Bel\u00e9m foi &#8212; como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de mar\u00e7o. E s\u00e1bado, 14 do dito m\u00eas, entre as 8 e 9 horas, nos achamos entre as Can\u00e1rias, mais perto da Grande Can\u00e1ria. E ali andamos todo aquele dia em calma, \u00e0 vista delas, obra de tr\u00eas a quatro l\u00e9guas. E domingo, 22 do dito m\u00eas, \u00e0s dez horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber da ilha de S\u00e3o Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.<\/p>\n<p>Na noite seguinte \u00e0 segunda-feira amanheceu, se perdeu da frota Vasco de Ata\u00edde com a sua nau, sem haver tempo forte ou contr\u00e1rio para poder ser !<\/p>\n<p>Fez o capit\u00e3o suas dilig\u00eancias para o achar, em umas e outras partes. Mas&#8230; n\u00e3o apareceu mais! E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, at\u00e9 que ter\u00e7a-feira das Oitavas de P\u00e1scoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha &#8211; segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 l\u00e9guas &#8211; os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que d\u00e3o o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manh\u00e3, topamos aves a que chamam furabuchos. Neste mesmo dia, a horas de v\u00e9spera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra ch\u00e3, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capit\u00e3o p\u00f4s o nome de O Monte Pascoal e \u00e0 terra A Terra de Vera Cruz!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-360\" src=\"https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Pagina-Carta-5.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"572\" srcset=\"https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Pagina-Carta-5.jpg 574w, https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Pagina-Carta-5-236x300.jpg 236w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/>Mandou lan\u00e7ar o prumo. Acharam vinte e cinco bra\u00e7as. E ao sol-posto umas seis l\u00e9guas da terra, lan\u00e7amos ancoras, em dezenove bra\u00e7as &#8211; ancoragem limpa. Ali ficamo-nos toda aquela noite. E quinta-feira, pela manh\u00e3, fizemos vela e seguimos em direitura \u00e0 terra, indo os navios pequenos diante &#8211; por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, doze, nove bra\u00e7as &#8211; at\u00e9 meia l\u00e9gua da terra, onde todos lan\u00e7amos ancoras, em frente da boca de um rio. E chegar\u00edamos a esta ancoragem \u00e0s dez horas, pouco mais ou menos. E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro. Ent\u00e3o lan\u00e7amos fora os bat\u00e9is e esquifes. E logo vieram todos os capit\u00e3es das naus a esta nau do Capit\u00e3o-mor. E ali falaram. E o Capit\u00e3o mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele come\u00e7ou a ir-se para l\u00e1, acudiram pela praia homens aos dois e aos tr\u00eas, de maneira que, quando o batel chegou \u00e0 boca do rio, j\u00e1 l\u00e1 estavam dezoito ou vinte.<\/p>\n<p>Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas m\u00e3os, e suas setas. Vinham todos rijamente em dire\u00e7\u00e3o ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas n\u00e3o p\u00f4de deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapu\u00e7a de linho que levava na cabe\u00e7a, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, mi\u00fadas que querem parecer de alj\u00f4far, as quais pe\u00e7as creio que o Capit\u00e3o manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu \u00e0s naus por ser tarde e n\u00e3o poder haver deles mais fala, por causa do mar.<\/p>\n<p>\u00c0 noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez ca\u00e7ar as naus. E especialmente a Capitanisol-postoa. E sexta pela manh\u00e3, \u00e0s oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capit\u00e3o levantar ancoras e fazer vela. E fomos de longo da costa, com os bat\u00e9is e esquifes amarrados na popa, em dire\u00e7\u00e3o norte, para ver se ach\u00e1vamos alguma abrigada e bom pouso, onde n\u00f3s fic\u00e1ssemos, para tomar \u00e1gua e lenha. N\u00e3o por nos j\u00e1 minguar, mas por nos prevenirmos aqui. E quando fizemos vela estariam j\u00e1 na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali aos poucos. Fomos ao longo, e mandou o Capit\u00e3o aos navios pequenos que fossem mais chegados \u00e0 terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.<\/p>\n<p>E velejando n\u00f3s pela costa, na dist\u00e2ncia de dez l\u00e9guas do s\u00edtio onde t\u00ednhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando, atr\u00e1s deles. E um pouco antes de sol-posto amainaram tamb\u00e9m, talvez a uma l\u00e9gua do recife, e ancoraram a onze bra\u00e7as. E estando Afonso Lopez, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi, por mandado do Capit\u00e3o, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou dois daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos. Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas n\u00e3o os aproveitou. Logo, j\u00e1 de noite, levou-os \u00e0 Capitaina, onde foram recebidos com muito prazer e festa.<\/p>\n<p>A fei\u00e7\u00e3o deles \u00e9 serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso s\u00e3o de grande inoc\u00eancia. Ambos traziam o bei\u00e7o de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma m\u00e3o travessa, e da grossura de um fuso de algod\u00e3o, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do bei\u00e7o; e a parte que lhes fica entre o bei\u00e7o e os dentes \u00e9 feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que n\u00e3o os magoa, nem lhes p\u00f5e estorvo no falar, nem no comer e beber.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-358 size-full alignleft\" style=\"font-size: 1rem;\" src=\"https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Pagina-Carta-3.jpg\" alt=\"\" width=\"295\" height=\"236\">Os cabelos deles s\u00e3o corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detr\u00e1s, uma esp\u00e9cie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o touti\u00e7o e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confei\u00e7\u00e3o branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e n\u00e3o fazia m\u00edngua mais lavagem para a levantar.<\/p>\n<p>O Capit\u00e3o, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos p\u00e9s uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pesco\u00e7o. E Sancho de Tovar, e Sim\u00e3o de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corr\u00eaa, e n\u00f3s outros que aqui na nau com ele \u00edamos, sentados no ch\u00e3o, nessa alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capit\u00e3o; nem a algu\u00e9m. Todavia um deles fitou o colar do Capit\u00e3o, e come\u00e7ou a fazer acenos com a m\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E tamb\u00e9m olhou para um casti\u00e7al de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o casti\u00e7al, como se l\u00e1 tamb\u00e9m houvesse prata!<\/p>\n<p>Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capit\u00e3o traz consigo; tomaram-no logo na m\u00e3o e acenaram para a terra, como se os houvesse ali. Mostraram-lhes um carneiro; n\u00e3o fizeram caso dele. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e n\u00e3o lhe queriam p\u00f4r a m\u00e3o. Depois lhe pegaram, mas como espantados. Deram-lhes ali de comer: p\u00e3o e peixe cozido, confeitos, fart\u00e9is, mel, figos passados. N\u00e3o quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lan\u00e7avam fora. Trouxeram-lhes vinho em uma ta\u00e7a; mal lhe puseram a boca; n\u00e3o gostaram dele nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes \u00e1gua em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas n\u00e3o beberam; apenas lavaram as bocas e lan\u00e7aram-na fora. Viu um deles umas contas de ros\u00e1rio, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lan\u00e7ou-as ao pesco\u00e7o; e depois tirou-as e meteu-as em volta do bra\u00e7o, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capit\u00e3o, como se dariam ouro por aquilo.<\/p>\n<p>Isto tom\u00e1vamos n\u00f3s nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto n\u00e3o quer\u00edamos n\u00f3s entender, por que lho n\u00e3o hav\u00edamos de dar! E depois tornou as contas a quem lhas dera. E ent\u00e3o estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir sem procurarem maneiras de encobrir suas vergonhas, as quais n\u00e3o eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas. O Capit\u00e3o mandou p\u00f4r por baixo da cabe\u00e7a de cada um seu coxim; e o da cabeleira esfor\u00e7ava-se por n\u00e3o a estragar. E deitaram um manto por cima deles; e consentindo, aconchegaram-se e adormeceram.<\/p>\n<p>S\u00e1bado pela manh\u00e3 mandou o Capit\u00e3o fazer vela, fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e tinha seis a sete bra\u00e7as de fundo. E entraram todas as naus dentro, e ancoraram em cinco ou seis bra\u00e7as &#8212; ancoradouro que \u00e9 t\u00e3o grande e t\u00e3o formoso de dentro, e t\u00e3o seguro que podem ficar nele mais de duzentos navios e naus.<\/p>\n<p>Caminha l\u00ea a carta ao Rei D. ManuelE tanto que as naus foram distribu\u00eddas e ancoradas, vieram os capit\u00e3es todos a esta nau do Capit\u00e3o-mor. E daqui mandou o Capit\u00e3o que Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias fossem em terra e levassem aqueles dois homens, e os deixassem ir com seu arco e setas, aos quais mandou dar a cada um uma camisa nova e uma carapu\u00e7a vermelha e um ros\u00e1rio de contas brancas de osso, que foram levando nos bra\u00e7os, e um cascavel e uma campainha. E mandou com eles, para l\u00e1 ficar, um mancebo degredado, criado de dom Jo\u00e3o Telo, de nome Afonso Ribeiro, para l\u00e1 andar com eles e saber de seu viver e maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos assim de frecha direitos \u00e0 praia. Ali acudiram logo perto de duzentos homens, todos nus, com arcos e setas nas m\u00e3os. Aqueles que n\u00f3s levamos acenaram-lhes que se afastassem e depusessem os arcos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-357 size-full alignleft\" style=\"font-size: 1rem;\" src=\"https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Pagina-Carta-2.jpg\" alt=\"\" width=\"237\" height=\"163\">E eles os depuseram. Mas n\u00e3o se afastaram muito. E mal tinham pousado seus arcos quando sa\u00edram os que n\u00f3s lev\u00e1vamos, e o mancebo degredado com eles. E sa\u00eddos n\u00e3o pararam mais; nem esperavam um pelo outro, mas antes corriam a quem mais correria. E passaram um rio que a\u00ed corre, de \u00e1gua doce, de muita \u00e1gua que lhes dava pela braga. E muitos outros com eles. E foram assim correndo para al\u00e9m do rio entre umas moitas de palmeiras onde estavam outros. E ali pararam. E naquilo tinha ido o degredado com um homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou at\u00e9 l\u00e1. Mas logo o tornaram a n\u00f3s. E com ele vieram os outros que n\u00f3s lev\u00e1ramos, os quais vinham j\u00e1 nus e sem carapu\u00e7as. E ent\u00e3o se come\u00e7aram de chegar muitos; e entravam pela beira do mar para os bat\u00e9is, at\u00e9 que mais n\u00e3o podiam. E traziam caba\u00e7as d&#8217;\u00e1gua, e tomavam alguns barris que n\u00f3s lev\u00e1vamos e enchiam-nos de \u00e1gua e traziam-nos aos bat\u00e9is. N\u00e3o que eles de todo chegassem a bordo do batel. Mas junto a ele, lan\u00e7avam-nos da m\u00e3o. E n\u00f3s tom\u00e1vamo-los. E pediam que lhes dessem alguma coisa.<\/p>\n<p>Levava Nicolau Coelho cascav\u00e9is e manilhas. E a uns dava um cascavel, e a outros uma manilha, de maneira que com aquela encarna quase que nos queriam dar a m\u00e3o. Davam-nos daqueles arcos e setas em troca de sombreiros e carapu\u00e7as de linho, e de qualquer coisa que a gente lhes queria dar. Dali se partiram os outros, dois mancebos, que n\u00e3o os vimos mais. Dos que ali andavam, muitos &#8212; quase a maior parte &#8211;traziam aqueles bicos de osso nos bei\u00e7os. E alguns, que andavam sem eles, traziam os bei\u00e7os furados e nos buracos traziam uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles traziam tr\u00eas daqueles bicos, a saber um no meio, e os dois nos cabos.<\/p>\n<p>E andavam l\u00e1 outros, quartejados de cores, a saber metade deles da sua pr\u00f3pria cor, e metade de tintura preta, um tanto azulada; e outros quartejados d&#8217;escaques.<\/p>\n<p>Ali andavam entre eles tr\u00eas ou quatro mo\u00e7as, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, t\u00e3o altas e t\u00e3o cerradinhas e t\u00e3o limpas das cabeleiras que, de as n\u00f3s muito bem olharmos, n\u00e3o se envergonhavam.<\/p>\n<p>Ali por ent\u00e3o n\u00e3o houve mais fala ou entendimento com eles, por a barbaria deles ser tamanha que se n\u00e3o entendia nem ouvia ningu\u00e9m. Acenamos-lhes que se fossem. E assim o fizeram e passaram-se para al\u00e9m do rio. E sa\u00edram tr\u00eas ou quatro homens nossos dos bat\u00e9is, e encheram n\u00e3o sei quantos barris d&#8217;\u00e1gua que n\u00f3s lev\u00e1vamos. E tornamo-nos \u00e0s naus. E quando assim v\u00ednhamos, acenaram-nos que volt\u00e1ssemos.<\/p>\n<p>Voltamos, e eles mandaram o degredado e n\u00e3o quiseram que ficasse l\u00e1 com eles, o qual levava uma bacia pequena e duas ou tr\u00eas carapu\u00e7as vermelhas para l\u00e1 as dar ao senhor, se o l\u00e1 houvesse. N\u00e3o trataram de lhe tirar coisa alguma, antes mandaram-no com tudo. Mas ent\u00e3o Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, que lhe desse aquilo. E ele tornou e deu aquilo, em vista de n\u00f3s, a aquele que o da primeira agasalhara. E ent\u00e3o veio-se, e n\u00f3s levamo-lo. Esse que o agasalhou era j\u00e1 de idade, e andava por galanteria, cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia seteado como S\u00e3o Sebasti\u00e3o. Outros traziam carapu\u00e7as de penas amarelas; e outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas mo\u00e7as era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era t\u00e3o bem feita e t\u00e3o redonda, e sua vergonha t\u00e3o graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais fei\u00e7\u00f5es envergonhara, por n\u00e3o terem as suas como ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como n\u00f3s.<\/p>\n<p>E com isto nos tornamos, e eles foram-se.<\/p>\n<p>\u00c0 tarde saiu o Capit\u00e3o-mor em seu batel com todos n\u00f3s outros capit\u00e3es das naus em seus bat\u00e9is a folgar pela ba\u00eda, perto da praia. Mas ningu\u00e9m saiu em terra, por o Capit\u00e3o o n\u00e3o querer, apesar de ningu\u00e9m estar nela. Apenas saiu &#8212; ele com todos n\u00f3s &#8212; em um ilh\u00e9u grande que est\u00e1 na ba\u00eda, o qual, aquando baixamar, fica mui vazio. Com tudo est\u00e1 de todas as partes cercado de \u00e1gua, de sorte que ningu\u00e9m l\u00e1 pode ir, a n\u00e3o ser de barco ou a nado. Ali folgou ele, e todos n\u00f3s, bem uma hora e meia. E pescaram l\u00e1, andando alguns marinheiros com um chinchorro; e mataram peixe mi\u00fado, n\u00e3o muito. E depois volvemo-nos \u00e0s naus, j\u00e1 bem noite.<\/p>\n<p>Ao domingo de Pascoela pela manh\u00e3, determinou o Capit\u00e3o ir ouvir missa e serm\u00e3o naquele ilh\u00e9u. E mandou a todos os capit\u00e3es que se arranjassem nos bat\u00e9is e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilh\u00e3o naquele ilh\u00e9u, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos n\u00f3s outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devo\u00e7\u00e3o. Ali estava com o Capit\u00e3o a bandeira de Cristo, com que sa\u00edra de Bel\u00e9m, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho. Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e n\u00f3s todos lan\u00e7ados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa prega\u00e7\u00e3o, da hist\u00f3ria evang\u00e9lica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se \u00e0 Cruz, sob cuja obedi\u00eancia viemos, que veio muito a prop\u00f3sito, e fez muita devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto assistimos \u00e0 missa e ao serm\u00e3o, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando n\u00f3s sentados atend\u00edamos a prega\u00e7\u00e3o, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e come\u00e7aram a saltar e dan\u00e7ar um peda\u00e7o. E alguns deles se metiam em almadias &#8212; duas ou tr\u00eas que l\u00e1 tinham &#8212; as quais n\u00e3o s\u00e3o feitas como as que eu vi; apenas s\u00e3o tr\u00eas traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, n\u00e3o se afastando quase nada da terra, s\u00f3 at\u00e9 onde podiam tomar p\u00e9. Acabada a prega\u00e7\u00e3o encaminhou-se o Capit\u00e3o, com todos n\u00f3s, para os bat\u00e9is, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos indo todos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo na dianteira, por ordem do Capit\u00e3o, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para o entregar a eles. E n\u00f3s todos tr\u00e1s dele, a dist\u00e2ncia de um tiro de pedra.<\/p>\n<p>Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos \u00e0 \u00e1gua, metendo-se nela at\u00e9 onde mais podiam. Acenaram-lhes que pousassem os arcos e muitos deles os iam logo p\u00f4r em terra; e outros n\u00e3o os punham. Andava l\u00e1 um que falava muito aos outros, que se afastassem. Mas n\u00e3o j\u00e1 que a mim me parecesse que lhe tinham respeito ou medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas. Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, coxas e pernas at\u00e9 baixo, mas os vazios com a barriga e est\u00f4mago eram de sua pr\u00f3pria cor. E a tintura era t\u00e3o vermelha que a \u00e1gua lha n\u00e3o comia nem desfazia. Antes, quando sa\u00eda da \u00e1gua, era mais vermelho. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava no meio deles, sem implicarem nada com ele, e muito menos ainda pensavam em fazer-lhe mal. Apenas lhe davam caba\u00e7as d&#8217;\u00e1gua; e acenavam aos do esquife que sa\u00edssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capit\u00e3o. E viemo-nos \u00e0s naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem os mais constranger. E eles tornaram-se a sentar na praia, e assim por ent\u00e3o ficaram.<\/p>\n<p>Neste ilh\u00e9u, onde fomos ouvir missa e serm\u00e3o, espraia muito a \u00e1gua e descobre muita areia e muito cascalho. Enquanto l\u00e1 est\u00e1vamos foram alguns buscar marisco e n\u00e3o no acharam. Mas acharam alguns camar\u00f5es grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande e muito grosso; que em nenhum tempo o vi tamanho. Tamb\u00e9m acharam cascas de berbig\u00f5es e de am\u00eaijoas, mas n\u00e3o toparam com nenhuma pe\u00e7a inteira. E depois de termos comido vieram logo todos os capit\u00e3es a esta nau, por ordem do Capit\u00e3o-mor, com os quais ele se aportou; e eu na companhia. E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que n\u00f3s pod\u00edamos saber, por irmos na nossa viagem.<\/p>\n<p>E entre muitas falas que sobre o caso se fizeram foi dito, por todos ou a maior parte, que seria muito bem. E nisto concordaram. E logo que a resolu\u00e7\u00e3o foi tomada, perguntou mais, se seria bem tomar aqui por for\u00e7a um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza, deixando aqui em lugar deles outros dois destes degredados.<\/p>\n<p>E concordaram em que n\u00e3o era necess\u00e1rio tomar por for\u00e7a homens, porque costume era dos que assim \u00e0 for\u00e7a levavam para alguma parte dizerem que h\u00e1 de tudo quanto lhes perguntam; e que melhor e muito melhor informa\u00e7\u00e3o da terra dariam dois homens desses degredados que aqui deix\u00e1ssemos do que eles dariam se os levassem por ser gente que ningu\u00e9m entende. Nem eles cedo aprenderiam a falar para o saberem t\u00e3o bem dizer que muito melhor estoutros o n\u00e3o digam quando c\u00e1 Vossa Alteza mandar. E que portanto n\u00e3o cuid\u00e1ssemos de aqui por for\u00e7a tomar ningu\u00e9m, nem fazer esc\u00e2ndalo; mas sim, para os de todo amansar e apaziguar, unicamente de deixar aqui os dois degredados quando daqui part\u00edssemos. E assim ficou determinado por parecer melhor a todos. Acabado isto, disse o Capit\u00e3o que f\u00f4ssemos nos bat\u00e9is em terra. E ver-se-ia bem, quejando era o rio. Mas tamb\u00e9m para folgarmos.<\/p>\n<p>Fomos todos nos bat\u00e9is em terra, armados; e a bandeira conosco. Eles andavam ali na praia, \u00e0 boca do rio, para onde n\u00f3s \u00edamos; e, antes que cheg\u00e1ssemos, pelo ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos, e acenaram que sa\u00edssemos. Mas, tanto que os bat\u00e9is puseram as proas em terra, passaram-se logo todos al\u00e9m do rio, o qual n\u00e3o \u00e9 mais ancho que um jogo de mancal. E tanto que desembarcamos, alguns dos nossos passaram logo o rio, e meteram-se entre eles. E alguns aguardavam; e outros se afastavam. Com tudo, a coisa era de maneira que todos andavam misturados. Eles davam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapu\u00e7as de linho, e por qualquer coisa que lhes davam. Passaram al\u00e9m tantos dos nossos e andaram assim misturados com eles, que eles se esquivavam, e afastavam-se; e iam alguns para cima, onde outros estavam.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o o Capit\u00e3o fez que o tomassem ao colo dois homens e passou o rio, e fez tornar a todos. A gente que ali estava n\u00e3o seria mais que aquela do costume. Mas logo que o Capit\u00e3o chamou todos para tr\u00e1s, alguns se chegaram a ele, n\u00e3o por o reconhecerem por Senhor, mas porque a gente, nossa, j\u00e1 passava para aqu\u00e9m do rio. Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas, daquelas j\u00e1 ditas, e resgatavam-nas por qualquer coisa, de tal maneira que os nossos levavam dali para as naus muitos arcos, e setas e contas.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o tornou-se o Capit\u00e3o para aqu\u00e9m do rio. E logo acudiram muitos \u00e0 beira dele.<\/p>\n<p>Ali ver\u00edeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Tamb\u00e9m andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, n\u00e3o pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho at\u00e9 o quadril e a n\u00e1dega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e tamb\u00e9m os colos dos p\u00e9s; e suas vergonhas t\u00e3o nuas, e com tanta inoc\u00eancia assim descobertas, que n\u00e3o havia nisso desvergonha nenhuma.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-359 alignleft\" style=\"font-size: 1rem;\" src=\"https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Pagina-Carta-4-300x183.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"274\" srcset=\"https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Pagina-Carta-4-300x183.jpg 300w, https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Pagina-Carta-4.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/>Tamb\u00e9m andava l\u00e1 outra mulher, nova, com um menino ou menina, atado com um pano aos peitos, de modo que n\u00e3o se lhe viam sen\u00e3o as perninhas. Mas nas pernas da m\u00e3e, e no resto, n\u00e3o havia pano algum. Em seguida o Capit\u00e3o foi subindo ao longo do rio, que corre rente \u00e0 praia. E ali esperou por um velho que trazia na m\u00e3o uma p\u00e1 de almadia. Falou, enquanto o Capit\u00e3o estava com ele, na presen\u00e7a de todos n\u00f3s; mas ningu\u00e9m o entendia, nem ele a n\u00f3s, por mais coisas que a gente lhe perguntava com respeito a ouro, porque desej\u00e1vamos saber se o havia na terra. Trazia este velho o bei\u00e7o t\u00e3o furado que lhe cabia pelo buraco um grosso dedo polegar. E trazia metido no buraco uma pedra verde, de nenhum valor, que fechava por fora aquele buraco. E o Capit\u00e3o lha fez tirar. E ele n\u00e3o sei que diabo falava e ia com ela para a boca do Capit\u00e3o para lha meter. Estivemos rindo um pouco e dizendo chala\u00e7as sobre isso. E ent\u00e3o enfadou-se o Capit\u00e3o, e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho; n\u00e3o por ela valer alguma coisa, mas para amostra. E depois houve-a o Capit\u00e3o, creio, para mandar com as outras coisas a Vossa Alteza.<\/p>\n<p>Andamos por a\u00ed vendo o ribeiro, o qual \u00e9 de muita \u00e1gua e muito boa. Ao longo dele h\u00e1 muitas palmeiras, n\u00e3o muito altas; e muito bons palmitos. Colhemos e comemos muitos deles. Depois tornou-se o Capit\u00e3o para baixo para a boca do rio, onde t\u00ednhamos desembarcado. E al\u00e9m do rio andavam muitos deles dan\u00e7ando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas m\u00e3os. E faziam-no bem. Passou-se ent\u00e3o para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacav\u00e9m, o qual \u00e9 homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dan\u00e7ar com eles, tomando-os pelas m\u00e3os; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dan\u00e7arem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no ch\u00e3o, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o passou o rio o Capit\u00e3o com todos n\u00f3s, e fomos pela praia, de longo, ao passo que os bat\u00e9is iam rentes \u00e0 terra. E chegamos a uma grande lagoa de \u00e1gua doce que est\u00e1 perto da praia, porque toda aquela ribeira do mar \u00e9 apaulada por cima e sai a \u00e1gua por muitos lugares. E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles meter-se entre os marinheiros que se recolhiam aos bat\u00e9is. E levaram dali um tubar\u00e3o que Bartolomeu Dias matou. E levavam-lho; e lan\u00e7ou-o na praia. Bastar\u00e1 que at\u00e9 aqui, como quer que se lhes em alguma parte amansassem, logo de uma m\u00e3o para outra se esquivavam, como pardais do cevadouro. Ningu\u00e9m n\u00e3o lhes ousa falar de rijo para n\u00e3o se esquivarem mais. E tudo se passa como eles querem &#8212; para os bem amansarmos ! Ao velho com quem o Capit\u00e3o havia falado, deu-lhe uma carapu\u00e7a vermelha.<\/p>\n<p>E com toda a conversa que com ele houve, e com a carapu\u00e7a que lhe deu tanto que se despediu e come\u00e7ou a passar o rio, foi-se logo recatando. E n\u00e3o quis mais tornar do rio para aqu\u00e9m. Os outros dois o Capit\u00e3o teve nas naus, aos quais deu o que j\u00e1 ficou dito, nunca mais aqui apareceram &#8212; fatos de que deduzo que \u00e9 gente bestial e de pouco saber, e por isso t\u00e3o esquiva. Mas apesar de tudo isso andam bem curados, e muito limpos. E naquilo ainda mais me conven\u00e7o que s\u00e3o como aves, ou alim\u00e1rias montesinhas, as quais o ar faz melhores penas e melhor cabelo que \u00e0s mansas, porque os seus corpos s\u00e3o t\u00e3o limpos e t\u00e3o gordos e t\u00e3o formosos que n\u00e3o pode ser mais! E isto me faz presumir que n\u00e3o tem casas nem moradias em que se recolham; e o ar em que se criam os faz tais. N\u00f3s pelo menos n\u00e3o vimos at\u00e9 agora nenhumas casas, nem coisa que se pare\u00e7a com elas.<\/p>\n<p>Mandou o Capit\u00e3o aquele degredado, Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles. E foi; e andou l\u00e1 um bom peda\u00e7o, mas a tarde regressou, que o fizeram eles vir: e n\u00e3o o quiseram l\u00e1 consentir. E deram-lhe arcos e setas; e n\u00e3o lhe tomaram nada do seu. Antes, disse ele, que lhe tomara um deles umas continhas amarelas que levava e fugia com elas, e ele se queixou e os outros foram logo ap\u00f3s ele, e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar; e ent\u00e3o mandaram-no vir. Disse que n\u00e3o vira l\u00e1 entre eles sen\u00e3o umas choupaninhas de rama verde e de feteiras muito grandes, como as de Entre-Douro-e-Minho. E assim nos tornamos \u00e0s naus, j\u00e1 quase noite, a dormir. Segunda-feira, depois de comer, sa\u00edmos todos em terra a tomar \u00e1gua. Ali vieram ent\u00e3o muitos; mas n\u00e3o tantos como as outras vezes. E traziam j\u00e1 muito poucos arcos. E estiveram um pouco afastados de n\u00f3s; mas depois pouco a pouco misturaram-se conosco; e abra\u00e7avam-nos e folgavam; mas alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha e por qualquer coisa.<\/p>\n<p>E de tal maneira se passou a coisa que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles para onde outros muitos deles estavam com mo\u00e7as e mulheres. E trouxeram de l\u00e1 muitos arcos e barretes de penas de aves, uns verdes, outros amarelos, dos quais creio que o Capit\u00e3o h\u00e1 de mandar uma amostra a Vossa Alteza. E segundo diziam esses que l\u00e1 tinham ido, brincaram com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais \u00e0 nossa vontade, por andarmos quase todos misturados: uns andavam quartejados daquelas tinturas, outros de metades, outros de tanta fei\u00e7\u00e3o como em pano de ras, e todos com os bei\u00e7os furados, muitos com os ossos neles, e bastantes sem ossos. Alguns traziam uns ouri\u00e7os verdes, de \u00e1rvores, que na cor queriam parecer de castanheiras, embora fossem muito mais pequenos. E estavam cheios de uns gr\u00e3os vermelhos, pequeninos que, esmagando-se entre os dedos, se desfaziam na tinta muito vermelha de que andavam tingidos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam.<\/p>\n<p>Todos andam rapados at\u00e9 por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas.<\/p>\n<p>Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos. E o Capit\u00e3o mandou aquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados que fossem meter-se entre eles; e assim mesmo a Diogo Dias, por ser homem alegre, com que eles folgavam. E aos degredados ordenou que ficassem l\u00e1 esta noite. Foram-se l\u00e1 todos; e andaram entre eles. E segundo depois diziam, foram bem uma l\u00e9gua e meia a uma povoa\u00e7\u00e3o, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram t\u00e3o compridas, cada uma, como esta nau capitaina. E eram de madeira, e das ilhargas de t\u00e1buas, e cobertas de palha, de razo\u00e1vel altura; e todas de um s\u00f3 espa\u00e7o, sem reparti\u00e7\u00e3o alguma, tinham de dentro muitos esteios; e de esteio a esteio uma rede atada com cabos em cada esteio, altas, em que dormiam. E de baixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma numa extremidade, e outra na oposta.<\/p>\n<p>E diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os encontraram; e que lhes deram de comer dos alimentos que tinham, a saber muito inhame, e outras sementes que na terra d\u00e1, que eles comem. E como se fazia tarde fizeram-nos logo todos tornar; e n\u00e3o quiseram que l\u00e1 ficasse nenhum. E ainda, segundo diziam, queriam vir com eles. Resgataram l\u00e1 por cascav\u00e9is e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos, e carapu\u00e7as de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, esp\u00e9cie de tecido assaz belo, segundo Vossa Alteza todas estas coisas ver\u00e1, porque o Capit\u00e3o v\u00f4-las h\u00e1 de mandar, segundo ele disse. E com isto vieram; e n\u00f3s tornamo-nos \u00e0s naus.<\/p>\n<p>Ter\u00e7a-feira, depois de comer, fomos em terra, fazer lenha, e para lavar roupa. Estavam na praia, quando chegamos, uns sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para n\u00f3s, sem se esquivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E misturaram-se todos tanto conosco que uns nos ajudavam a acarretar lenha e met\u00ea-las nos bat\u00e9is. E lutavam com os nossos, e tomavam com prazer. E enquanto faz\u00edamos a lenha, constru\u00edam dois carpinteiros uma grande cruz de um pau que se ontem para isso cortara. Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros. E creio que o faziam mais para verem a ferramenta de ferro com que a faziam do que para verem a cruz, porque eles n\u00e3o tem coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes, porque lhas viram l\u00e1. Era j\u00e1 a conversa\u00e7\u00e3o deles conosco tanta que quase nos estorvavam no que hav\u00edamos de fazer.<\/p>\n<p>E o Capit\u00e3o mandou a dois degredados e a Diogo Dias que fossem l\u00e1 \u00e0 aldeia e que de modo algum viessem a dormir \u00e0s naus, ainda que os mandassem embora. E assim se foram.<\/p>\n<p>Enquanto and\u00e1vamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas \u00e1rvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haver\u00e1 muitos nesta terra. Todavia os que vi n\u00e3o seriam mais que nove ou dez, quando muito. Outras aves n\u00e3o vimos ent\u00e3o, a n\u00e3o ser algumas pombas-seixeiras, e pareceram-me maiores bastante do que as de Portugal. V\u00e1rios diziam que viram rolas, mas eu n\u00e3o as vi. Todavia segundo os arvoredos s\u00e3o mui muitos e grandes, e de infinitas esp\u00e9cies, n\u00e3o duvido que por esse sert\u00e3o haja muitas aves!<\/p>\n<p>E cerca da noite n\u00f3s volvemos para as naus com nossa lenha. Eu creio, Senhor, que n\u00e3o dei ainda conta aqui a Vossa Alteza do feitio de seus arcos e setas. Os arcos s\u00e3o pretos e compridos, e as setas compridas; e os ferros delas s\u00e3o canas aparadas, conforme Vossa Alteza ver\u00e1 alguns que creio que o Capit\u00e3o a Ela h\u00e1 de enviar. Quarta-feira n\u00e3o fomos em terra, porque o Capit\u00e3o andou todo o dia no navio dos mantimentos a despej\u00e1-lo e fazer levar \u00e0s naus isso que cada um podia levar. Eles acudiram \u00e0 praia, muitos, segundo das naus vimos. Seriam perto de trezentos, segundo Sancho de Tovar que para l\u00e1 foi. Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, aos quais o Capit\u00e3o ontem ordenara que de toda maneira l\u00e1 dormissem, tinham voltado j\u00e1 de noite, por eles n\u00e3o quererem que l\u00e1 ficassem. E traziam papagaios verdes; e outras aves pretas, quase como pegas, com a diferen\u00e7a de terem o bico branco e rabos curtos. E quando Sancho de Tovar recolheu \u00e0 nau, queriam vir com ele, alguns; mas ele n\u00e3o admitiu sen\u00e3o dois mancebos, bem dispostos e homens de prol. Mandou pensar e cur\u00e1-los mui bem essa noite. E comeram toda a ra\u00e7\u00e3o que lhes deram, e mandou dar-lhes cama de len\u00e7\u00f3is, segundo ele disse. E dormiram e folgaram aquela noite. E n\u00e3o houve mais este dia que para escrever seja.<\/p>\n<p>Quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo, quase pela manh\u00e3, e fomos em terra por mais lenha e \u00e1gua. E em querendo o Capit\u00e3o sair desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dois h\u00f3spedes. E por ele ainda n\u00e3o ter comido, puseram-lhe toalhas, e veio-lhe comida. E comeu. Os h\u00f3spedes, sentaram-no cada um em sua cadeira. E de tudo quanto lhes deram, comeram mui bem, especialmente lac\u00e3o cozido frio, e arroz. N\u00e3o lhes deram vinho por Sancho de Tovar dizer que o n\u00e3o bebiam bem. Acabado o comer, metemo-nos todos no batel, e eles conosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco mont\u00eas, bem revolta. E logo que a tomou meteu-a no bei\u00e7o; e porque se lhe n\u00e3o queria segurar, deram-lhe uma pouca de cera vermelha. E ele ajeitou-lhe seu adere\u00e7o da parte de tr\u00e1s de sorte que segurasse, e meteu-a no bei\u00e7o, assim revolta para cima; e ia t\u00e3o contente com ela, como se tivesse uma grande j\u00f3ia. E tanto que sa\u00edmos em terra, foi-se logo com ela. E n\u00e3o tornou a aparecer l\u00e1.<\/p>\n<p>Andariam na praia, quando sa\u00edmos, oito ou dez deles; e de a\u00ed a pouco come\u00e7aram a vir. E parece-me que viriam este dia a praia quatrocentos ou quatrocentos e cinq\u00fcenta. Alguns deles traziam arcos e setas; e deram tudo em troca de carapu\u00e7as e por qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco do que lhes d\u00e1vamos, e alguns deles bebiam vinho, ao passo que outros o n\u00e3o podiam beber. Mas quer-me parecer que, se os acostumarem, o h\u00e3o de beber de boa vontade! Andavam todos t\u00e3o bem dispostos e t\u00e3o bem feitos e galantes com suas pinturas que agradavam. Acarretavam dessa lenha quanta podiam, com mil boas vontades, e levavam-na aos bat\u00e9is. E estavam j\u00e1 mais mansos e seguros entre n\u00f3s do que n\u00f3s est\u00e1vamos entre eles.<\/p>\n<p>Foi o Capit\u00e3o com alguns de n\u00f3s um peda\u00e7o por este arvoredo at\u00e9 um ribeiro grande, e de muita \u00e1gua, que ao nosso parecer \u00e9 o mesmo que vem ter \u00e0 praia, em que n\u00f3s tomamos \u00e1gua. Ali descansamos um peda\u00e7o, bebendo e folgando, ao longo dele, entre esse arvoredo que \u00e9 tanto e tamanho e t\u00e3o basto e de tanta qualidade de folhagem que n\u00e3o se pode calcular. H\u00e1 l\u00e1 muitas palmeiras, de que colhemos muitos e bons palmitos.<\/p>\n<p>Ao sairmos do batel, disse o Capit\u00e3o que seria bom irmos em direitura \u00e0 cruz que estava encostada a uma \u00e1rvore, junto ao rio, a fim de ser colocada amanh\u00e3, sexta-feira, e que nos pus\u00e9ssemos todos de joelhos e a beij\u00e1ssemos para eles verem o acatamento que lhe t\u00ednhamos. E assim fizemos. E a esses dez ou doze que l\u00e1 estavam, acenaram-lhes que fizessem o mesmo; e logo foram todos beij\u00e1-la.<\/p>\n<p>Parece-me gente de tal inoc\u00eancia que, se n\u00f3s entend\u00eassemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo crist\u00e3os, visto que n\u00e3o t\u00eam nem entendem cren\u00e7a alguma, segundo as apar\u00eancias. E portanto se os degredados que aqui h\u00e3o de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, n\u00e3o duvido que eles, segundo a santa ten\u00e7\u00e3o de Vossa Alteza, se far\u00e3o crist\u00e3os e h\u00e3o de crer na nossa santa f\u00e9, \u00e0 qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente \u00e9 boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-\u00e1 facilmente neles qualquer cunho que lhe quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o Ele nos para aqui trazer creio que n\u00e3o foi sem causa. E portanto Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar a santa f\u00e9 cat\u00f3lica, deve cuidar da salva\u00e7\u00e3o deles. E prazer\u00e1 a Deus que com pouco trabalho seja assim!<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o lavram nem criam. Nem h\u00e1 aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao viver do homem. E n\u00e3o comem sen\u00e3o deste inhame, de que aqui h\u00e1 muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as \u00e1rvores de si deitam. E com isto andam tais e t\u00e3o rijos e t\u00e3o n\u00e9dios que o n\u00e3o somos n\u00f3s tanto, com quanto trigo e legumes comemos. Nesse dia, enquanto ali andavam, dan\u00e7aram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril nosso, como se fossem mais amigos nossos do que n\u00f3s seus. Se lhes a gente acenava, se queriam vir \u00e0s naus, aprontavam-se logo para isso, de modo tal, que se os convid\u00e1ramos a todos, todos vieram. Por\u00e9m n\u00e3o levamos esta noite \u00e0s naus sen\u00e3o quatro ou cinco; a saber, o Capit\u00e3o-mor, dois; e Sim\u00e3o de Miranda, um que j\u00e1 trazia por pajem; e Aires Gomes a outro, pajem tamb\u00e9m. Os que o Capit\u00e3o trazia, era um deles um dos seus h\u00f3spedes que lhe haviam trazido a primeira vez quando aqui chegamos &#8212; o qual veio hoje aqui vestido na sua camisa, e com ele um seu irm\u00e3o; e foram esta noite mui bem agasalhados tanto de comida como de cama, de colch\u00f5es e len\u00e7\u00f3is, para os mais amansar.<\/p>\n<p>E hoje que \u00e9 sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manh\u00e3, sa\u00edmos em terra com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul onde nos pareceu que seria melhor arvorar a cruz, para melhor ser vista. E ali marcou o Capit\u00e3o o s\u00edtio onde haviam de fazer a cova para a fincar. E enquanto a iam abrindo, ele com todos n\u00f3s outros fomos pela cruz, rio abaixo onde ela estava. E com os religiosos e sacerdotes que cantavam, \u00e0 frente, fomos trazendo-a dali, a modo de prociss\u00e3o. Eram j\u00e1 a\u00ed quantidade deles, uns setenta ou oitenta; e quando nos assim viram chegar, alguns se foram meter debaixo dela, ajudar-nos. Passamos o rio, ao longo da praia; e fomos coloc\u00e1-la onde havia de ficar, que ser\u00e1 obra de dois tiros de besta do rio. Andando-se ali nisto, viriam bem cento cinq\u00fcenta, ou mais.<\/p>\n<p>Plantada a cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiro lhe haviam pregado, armaram altar ao p\u00e9 dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses j\u00e1 ditos. Ali estiveram conosco, a ela, perto de cinq\u00fcenta ou sessenta deles, assentados todos de joelho assim como n\u00f3s. E quando se veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em p\u00e9, com as m\u00e3os levantadas, eles se levantaram conosco, e al\u00e7aram as m\u00e3os, estando assim at\u00e9 se chegar ao fim; e ent\u00e3o tornaram-se a assentar, como n\u00f3s. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim como n\u00f3s est\u00e1vamos, com as m\u00e3os levantadas, e em tal maneira sossegados que certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estiveram assim conosco at\u00e9 acabada a comunh\u00e3o; e depois da comunh\u00e3o, comungaram esses religiosos e sacerdotes; e o Capit\u00e3o com alguns de n\u00f3s outros. E alguns deles, por o Sol ser grande, levantaram-se enquanto est\u00e1vamos comungando, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinq\u00fcenta ou cinq\u00fcenta e cinco anos, se conservou ali com aqueles que ficaram. Esse, enquanto assim est\u00e1vamos, juntava aqueles que ali tinham ficado, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles, falando-lhes, acenou com o dedo para o altar, e depois mostrou com o dedo para o c\u00e9u, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e n\u00f3s assim o tomamos! Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima, e ficou na alva; e assim se subiu, junto ao altar, em uma cadeira; e ali nos pregou o Evangelho e dos Ap\u00f3stolos cujo \u00e9 o dia, tratando no fim da prega\u00e7\u00e3o desse vosso prosseguimento t\u00e3o santo e virtuoso, que nos causou mais devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esses que estiveram sempre \u00e0 prega\u00e7\u00e3o estavam assim como n\u00f3s olhando para ele. E aquele que digo, chamava alguns, que viessem ali. Alguns vinham e outros iam-se; e acabada a prega\u00e7\u00e3o, trazia Nicolau Coelho muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda. E houveram por bem que lan\u00e7assem a cada um sua ao pesco\u00e7o. Por essa causa se assentou o padre frei Henrique ao p\u00e9 da cruz; e ali lan\u00e7ava a sua a todos &#8212; um a um &#8212; ao pesco\u00e7o, atada em um fio, fazendo-lha primeiro beijar e levantar as m\u00e3os. Vinham a isso muitos; e lan\u00e7avam-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinq\u00fcenta. E isto acabado &#8212; era j\u00e1 bem uma hora depois do meio dia &#8212; viemos \u00e0s naus a comer, onde o Capit\u00e3o trouxe consigo aquele mesmo que fez aos outros aquele gesto para o altar e para o c\u00e9u, (e um seu irm\u00e3o com ele). A aquele fez muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca; e ao outro uma camisa destoutras.<\/p>\n<p>E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, n\u00e3o lhes falece outra coisa para ser toda crist\u00e3, do que entenderem-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como n\u00f3s mesmos; por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adora\u00e7\u00e3o t\u00eam. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos ser\u00e3o tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se algu\u00e9m vier, n\u00e3o deixe logo de vir cl\u00e9rigo para os batizar; porque j\u00e1 ent\u00e3o ter\u00e3o mais conhecimentos de nossa f\u00e9, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje tamb\u00e9m comungaram. Entre todos estes que hoje vieram n\u00e3o veio mais que uma mulher, mo\u00e7a, a qual esteve sempre \u00e0 missa, \u00e0 qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, n\u00e3o se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inoc\u00eancia desta gente \u00e9 tal que a de Ad\u00e3o n\u00e3o seria maior &#8212; com respeito ao pudor. Ora veja Vossa Alteza quem em tal inoc\u00eancia vive se convertera, ou n\u00e3o, se lhe ensinarem o que pertence \u00e0 sua salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acabado isto, fomos perante eles beijar a cruz. E despedimo-nos e fomos comer.<\/p>\n<p>Creio, Senhor, que, com estes dois degredados que aqui ficam, ficar\u00e3o mais dois grumetes, que esta noite se sa\u00edram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais n\u00e3o vieram mais. E cremos que ficar\u00e3o aqui porque de manh\u00e3, prazendo a Deus fazemos nossa partida daqui.<\/p>\n<p>Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, at\u00e9 \u00e0 outra ponta que contra o norte vem, de que n\u00f3s deste porto houvemos vista, ser\u00e1 tamanha que haver\u00e1 nela bem vinte ou vinte e cinco l\u00e9guas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda ch\u00e3 e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta \u00e9 toda praia&#8230; muito ch\u00e3 e muito formosa. Pelo sert\u00e3o nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, n\u00e3o pod\u00edamos ver sen\u00e3o terra e arvoredos &#8212; terra que nos parecia muito extensa.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora n\u00e3o pudemos saber se h\u00e1 ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si \u00e9 de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d&#8217;agora assim os ach\u00e1vamos como os de l\u00e1. \u00c1guas s\u00e3o muitas; infinitas. Em tal maneira \u00e9 graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-\u00e1 nela tudo; por causa das \u00e1guas que tem! Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que ser\u00e1 salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lan\u00e7ar. E que n\u00e3o houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navega\u00e7\u00e3o de Calicute bastava. Quanto mais, disposi\u00e7\u00e3o para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa f\u00e9!<\/p>\n<p>E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez p\u00f4r assim pelo mi\u00fado.<\/p>\n<p>E pois que, Senhor, \u00e9 certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso servi\u00e7o for, Vossa Alteza h\u00e1 de ser de mim muito bem servida, a Ela pe\u00e7o que, por me fazer singular merc\u00ea, mande vir da ilha de S\u00e3o Tom\u00e9 a Jorge de Os\u00f3rio, meu genro &#8211; o que d&#8217;Ela receberei em muita merc\u00ea.<\/p>\n<p>Beijo as m\u00e3os de Vossa Alteza.<\/p>\n<p>Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.<\/p>\n<p><strong>Pero Vaz de Caminha<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1\u00ba de maio de 1500, Pero Vaz de Caminha, escriv\u00e3o da armada de Pedro \u00c1lvares Cabral, anunciou ao rei Dom Manuel, de Portugal, o descobrimento de novas terras em 22 de abril e as suas impress\u00f5es sobre a terra e sua gente. 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