{"id":1939,"date":"2023-01-15T22:33:57","date_gmt":"2023-01-15T22:33:57","guid":{"rendered":"https:\/\/portosma.com.br\/?page_id=1939"},"modified":"2023-01-15T22:33:57","modified_gmt":"2023-01-15T22:33:57","slug":"entrevista-jose-policarpo-da-costa-net0","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/portosma.com.br\/index.php\/entrevista-jose-policarpo-da-costa-net0\/","title":{"rendered":"Entrevista: JOS\u00c9 POLICARPO DA COSTA NET0"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #0000ff;\"><em><strong>Professor da Universidade Federal do Maranh\u00e3o e uma das maiores autoridades em \u00e1gua no Estado.<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #990000; font-size: medium;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1940 alignleft\" src=\"https:\/\/portosma.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/POLICARPO.jpg\" alt=\"\" width=\"216\" height=\"286\">\u201cA quest\u00e3o n\u00e3o se resume a ter ou n\u00e3o ter \u00e1gua. O grande p\u00e2nico da humanidade se deve a incr\u00edvel velocidade com que os ecossistemas aqu\u00e1ticos est\u00e3o se degradando. S\u00e3o Lu\u00eds \u00e9 um exemplo. H\u00e1 30 anos se banhava no rio anil, no bacanga e no paci\u00eancia, de onde sa\u00eda, inclusive, todo o abastecimento de \u00e1gua da capital. Hoje os tr\u00eas foram transformados em esgotodutos\u201d<\/span><\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><em><strong>Por Carlos Andrade, Jornal da Soamar, agosto de 2002<\/strong><\/em><\/h5>\n<p><em><span style=\"color: #0000ff;\">Conversar com o professor Jos\u00e9 Policarpo Costa Neto, \u00e9, literalmente, chover no molhado. \u00c9 Doutor em Engenharia pelo programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em hidr\u00e1ulica e saneamento da USP, na Escola de Engenharia de S\u00e3o Carlos, com especializa\u00e7\u00e3o e linha de pesquisa na \u00e1rea de limnologia. Sua tese: (Bases limnol\u00f3gicas para o manejo de tanques de cultivo de peixe&#8221;. Professor do quadro da Universidade Federal do Maranh\u00e3o, ele \u00e9 um, entre os diversos especialistas do Departamento de Hidrobiologia, a se preocupar com quest\u00f5es ligadas ao meio ambiente, ecologia, polui\u00e7\u00e3o e \u00e1gua. \u00c1gua, ali\u00e1s, \u00e9 a sua praia. Ou melhor, sua especialidade. Nesse ambiente l\u00edquido por natureza, ele navega com a desenvoltura de quem \u00e9 a maior autoridade estadual no assunto. Maranhense de Pinheiro, nasceu \u00e0s margens do rio Pericum\u00e2. Estudou no Col\u00e9gio Pinheirense, depois, j\u00e1 em S\u00e3o Lu\u00eds, no in\u00edcio dos anos 60, no Col\u00e9gio Marista. Aprovado no concurso da Sudene arrumou as malas e foi para Fortaleza, com Bolsa de Estudo paga pelo Governo, para se formar em Agronomia.<\/p>\n<p>O ano era 1967 e a faculdade, a Escola de Agronomia da Universidade Federal do Cear\u00e1, hoje conhecida como Centro de Ci\u00eancias Agr\u00e1rias. De volta ao Maranh\u00e3o, logo ingressou no quadro t\u00e9cnico do Banco de Desenvolvimento do Estado do Maranh\u00e3o, o j\u00e1 extinto BDM, onde ficou por exatos 25 anos. Apesar do Mestrado e da Gradua\u00e7\u00e3o em Agronomia Rural, o professor Policarpo \u00e9, antes de tudo, um apaixonado pela sua baixada. Criado sob a magia das \u00e1guas do Rio Pericum\u00e3, foi, como t\u00e9cnico do BDM &#8211; uma das mais respeitadas institui\u00e7\u00f5es de fomento do Estado &#8211; que ele cruzou o Maranh\u00e3o de ponta a ponta e viu despertar sua verdadeira voca\u00e7\u00e3o. Atento a tudo em sua volta como um verdadeiro mission\u00e1rio, logo se deixou seduzir pelo fasc\u00ednio das \u00e1guas que iam e vinham num ciclo natural de inverno e ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Ora criando lagos cheios e fartos. Ora criando campos verdes e fascinantes iguais aqueles, cujas paisagens, o ajudaram a construir seus sonhos de crian\u00e7a. Alguns anos depois o menino virou Doutor. Peitou dragas, enfrentou poderosos, e, pelo menos no seu Pericum\u00e3, manteve o curso natural das coisas, ou melhor, das \u00e1guas. Nessa entrevista ela fala da import\u00e2ncia de se preservar os mananciais, critica as formas de pol\u00edticas ambientais existentes, e faz um alerta: a fobia da \u00e1gua existe e \u00e9 um motivo s\u00e9rio de preocupa\u00e7\u00e3o. \u201cPor causa da falta de \u00e1gua e saneamento morre uma crian\u00e7a a cada 10 segundos no mundo. Al\u00e9m disso, 80% das doen\u00e7as e 30% das mortes ocorrem pelos mesmos motivos. Quer dizer, esse tipo de crime &#8211; e de criminosos &#8211; \u00e9 respons\u00e1vel pelo \u00f3bito mundial de mais de 10 milh\u00f5es de pessoas a cada ano\u201d.<\/span><\/em><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #006600;\">JS &#8211; Como a \u00e1gua entrou em seu curr\u00edculo?<\/span><\/strong><br \/>\nProf. POLlCARPO &#8211; Como pinheirense, quanto mais eu conhecia o Maranh\u00e3o, mais me chamava aten\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da \u00e1gua, tendo sempre como refer\u00eancia o rio Pericum\u00e3. Pois bem, o Governo do Estado resolveu fazer uma comporta, uma eclusa nesse rio e para isso foi autorizada uma dragagem do leito, que, inexplicavelmente, foi iniciada sem nenhum embasamento cientifico que medisse suas conseq\u00fc\u00eancias &#8211; naquela \u00e9poca ainda n\u00e3o se falava em estudos de impacto ambienta!. O mais grave: a dragagem seria feita em dois sentidos. Uma draga descendo e outra subindo o rio, com o objetivo de alargar seis metros em cada margem e outros tantos de profundidade. Aquilo me pareceu absurdo, pois eu sabia que alguma coisa estava errada. Uma obra dessa n\u00e3o poderia ser trabalho apenas de engenheiros. Naquele momento eu me despertei para a necessidade de estudar cientificamente a \u00e1gua.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #006600;\">JS &#8211; Mas a dragagem seguiu seu curso. Ou n\u00e3o?<\/span><\/strong><br \/>\nProf. POLlCARPO &#8211; Como professor e t\u00e9cnico do BDM e ainda como filho de Pinheiro, procurei imediatamente o DNOS e conversei com o ent\u00e3o Diretor T\u00e9cnico, Dr. Fel\u00edcio Santiago. Como ele n\u00e3o tinha respostas aos meus questionamento, sugeriu que fossemos no local da obra e ver a veracidade das minhas suspeitas. Nos meus argumentos, eu explicava que, mesmo n\u00e3o tendo conhecimento cientifico suficiente sobre o assunto, eu tinha certeza que alguma coisa estava errada, pois ao remover a lama, eles estavam acabando com um ecosistema natural respons\u00e1vel pela vida de centenas de milhares de esp\u00e9cies de peixes que daqueles microorganismos se alimentavam e mantinham vivo o ciclo da vida no Pericum\u00e3. Resultado: em vez de duas dragas, eles utilizaram apenas uma, subindo o rio, da comporta at\u00e9 o local conhecido como Alto do Pericum\u00e3.<\/p>\n<p><span style=\"color: #006600;\"><strong>JS &#8211; Foi ent\u00e3o que veio o doutorado?<\/strong><\/span><br \/>\nPOLlCARPO &#8211; Depois dessa discuss\u00e3o com o pessoal do DNOS, tive outra. Desta vez por causa do b\u00fafalo, um animal que foi introduzido como a salva\u00e7\u00e3o da economia da Baixada e se tornou, em pouqu\u00edssimo tempo, uma de suas piores pragas. Pois bem, por causa dessas quest\u00f5es, fui ao professor, Warwick Ker, ent\u00e3o Chefe do Departamento de Biologia da UFMA, e lhe disse o seguinte: estou de malas prontas para ir fazer o meu doutorado em economia rural na Unicamp. Mas tomei uma decis\u00e3o. Se eu tiver de gastar algum quantum da minha energia numa especializa\u00e7\u00e3o desse n\u00edvel, irei fazer naquilo que est\u00e1 me angustiando. Vou fazer em ecologia em \u00e1gua doce. Me diga onde tem o melhor curso nessa \u00e1rea. Dr. Warwick me deu total apoio e indicou a Universidade Federal de S\u00e3o Carlos, em S\u00e3o Paulo, uma refer\u00eancia em doutorado na \u00e1rea de limnologia. Na mesma hora ligou para o professor Jos\u00e9 Galizia Tun\u00edsio e assim come\u00e7ou a fase molhada do meu curr\u00edculo.<\/p>\n<p><span style=\"color: #006600;\"><strong>JS \u2013 Muito bem, o Senhor \u00e9 Doutor exatamente em qu\u00ea?<\/strong><\/span><br \/>\nProf. POLICARPO &#8211; Iniciei o Doutorado na Federal de S\u00e3o Carlos e depois acompanhei o Professor Tun\u00edsio que se transferiu para a \u00e1 USP de S\u00e3o Carlos, onde implantou o programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em hidr\u00e1ulica e saneamento. Sou Doutor em engenharia pelo programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em hidr\u00e1ulica e saneamento da USP, da Escola de Engenharia de S\u00e3o Carlos, com especializa\u00e7\u00e3o e linha de pesquisa na \u00e1rea de limnologia. A minha tese de doutorado foi defendida tendo como tema \u00e0s &#8220;Bases limnol\u00f3gicas para o manejo de tanques de cultivo de peixe&#8221;.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #006600;\">JS &#8211; Para um especialista a defini\u00e7\u00e3o da \u00e1gua \u00e9 simples como H20?<\/span><\/strong><br \/>\nProf. POLICARPO &#8211; N\u00e3o. \u00c9 muito mais ampla, pois eu a vejo como uma subst\u00e2ncia inerente \u00e0 vida. Eu costumo dizer aos meus alunos que n\u00f3s, assim como utilizamos o ar, consumimos \u00e1gua 24 horas do dia. At\u00e9 mesmo quando dormimos o nosso metabolismo est\u00e1 processando \u00e1gua. Tanto \u00e9 verdade que ao acordar temos uma inadi\u00e1vel vontade de urinar. Ou seja: \u00e9 o organismo querendo eliminar a \u00e1gua processada durante o sono.<\/p>\n<p><span style=\"color: #006600;\"><strong>JS &#8211; Para o Senhor, a refer\u00eancia mais antiga da \u00e1gua \u00e9 a do G\u00eanesis b\u00edblico, ou n\u00e3o?<\/strong><\/span><br \/>\nProf. POLICARPO &#8211; Eu acho que \u00e9 o registro b\u00edblico sim. N\u00e3o acredito que a ci\u00eancia tenha encontrado uma explica\u00e7\u00e3o anterior. Mesmo porque a refer\u00eancia do G\u00eanesis n\u00e3o determina data. Independente de registros antigos, o que a ci\u00eancia tem feito \u00e9 buscar uma explica\u00e7\u00e3o convincente de como dois \u00e1tomos de hidrog\u00eanio se juntaram a um de oxig\u00eanio resultando nessa mol\u00e9cula fant\u00e1stica da qual se obt\u00e9m a \u00e1gua.<\/p>\n<p><span style=\"color: #006600;\"><strong>JS &#8211; \u00c1gua fora da nossa gal\u00e1xia, \u00e9 poss\u00edvel?<\/strong><\/span><br \/>\nProf. POLICARPO &#8211; Eu acho como uma coisa natural. N\u00e3o sei como contaram, mas existem estimativas de 4,5 bilh\u00f5es de gal\u00e1xias. Na minha cabe\u00e7a n\u00e3o cabe a tese de que nesse universo todo, onde a Via L\u00e1ctea \u00e9 uma entre milh\u00f5es de outras, apenas a terra seria beneficiada com esse l\u00edquido maravilhoso chamado \u00e1gua. \u00c9 muita pretens\u00e3o imaginar que apenas o nosso planeta tem vida. Pode ser \u00fanico em termos de ser humano, mas a probabilidade de outras formas de vida existirem \u00e9, a meu ver, bastante vi\u00e1vel.<\/p>\n<p><span style=\"color: #006600;\"><strong>JS &#8211; Num planeta onde dois ter\u00e7os \u00e9 \u00e1gua, por qu\u00ea alguns pa\u00edses, como o Afeganist\u00e3o por exemplo, s\u00e3o t\u00e3o secos?<\/strong><\/span><br \/>\nProf POLICARPO &#8211; Isto ocorre por causa de uma p\u00e9ssima distribui\u00e7\u00e3o ou uma distribui\u00e7\u00e3o desigual. Veja o exemplo do Brasil. N\u00f3s temos 17% da \u00e1gua do mundo e ainda morre crian\u00e7a de sede no Nordeste, apesar da proximidade com a Regi\u00e3o Amaz\u00f4nica, onde o produto existe de forma abundante. Independente da p\u00e9ssima distribui\u00e7\u00e3o, o Nordeste \u00e9 servido por um aq\u00fc\u00edfero subterr\u00e2neo de grande potencial e inexplicavelmente nunca explorado.<\/p>\n<p><span style=\"color: #006600;\"><strong>JS &#8211; Existe tecnologia para esse tipo de explora\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/span><br \/>\nProf POLICARPO &#8211; Existe, funciona e s\u00f3 n\u00e3o se resolve o problema da seca neste pa\u00eds por absoluta falta de vontade pol\u00edtica. Existem alguns estudos que comprovam essa tese e o mais respeitado deles pertence ao professor Batista Reis, da USP de S\u00e3o Paulo, uma autoridade nacional no assunto. E claro que existe alguma injusti\u00e7as da natureza com rela\u00e7\u00e3o a essa ou aquela regi\u00e3o. Mas por outro lado, quando chove menos num local, reduzindo a \u00e1gua da superf\u00edcie, pode apostar que ela existe em grande quantidade em len\u00e7\u00f3is subterr\u00e2neos.<br \/>\n<span style=\"color: #006600;\"><br \/>\n<strong>JS &#8211; Seria esse o diagn\u00f3stico do Nordeste?<\/strong><\/span><br \/>\nProf POLICARPO &#8211; Tamb\u00e9m, mas existe outro. O Nordeste \u00e9 pobre porque tem escassez n\u00e3o de \u00e1gua, mas de pol\u00edticos de vergonha. Homens p\u00fablicos comprometidos com os problemas das pessoas e que busquem solu\u00e7\u00f5es reais e definitivas. Eu n\u00e3o tenho esses dados, mas dizem que bastaria que o Governo aplicasse 10% do montante de recursos j\u00e1 consumido pela industria da seca para que o Nordeste fosse outro. Bastava mandar perfurar po\u00e7os profundos &#8211; entre 800 e 1000 metros &#8211; e depois tratasse essa \u00e1gua e a entregasse a popula\u00e7\u00e3o. Nunca mais essa regi\u00e3o teria sede.<\/p>\n<p><span style=\"color: #006600;\"><strong>JS &#8211; P\u00e2nico de ficar sem \u00e1gua. Essa fobia tem sentido?<\/strong><\/span><br \/>\nProf. POLICARPO &#8211; Tem, e muito. E os n\u00fameros dos recursos h\u00eddricos do planeta mostram isso de forma clara. Veja bem: 71% da superf\u00edcie da terra \u00e9 coberta de \u00e1gua. Desse total, 97,5% est\u00e3o nos oceanos. \u00c1gua salgada. Apenas 2,5% da \u00e1gua da terra \u00e9 doce. Agora preste aten\u00e7\u00e3o: desse total de 2,5% considerado de \u00e1gua doce, 69 % est\u00e3o sob a forma de gelo, congelada nas calotas polares e nas geleiras como os Alpes, Andes e outras cordilheiras; Dos 31 % restantes, 30% representam \u00e1gua de sub-solo e. O que sobra \u00e9 apenas 1% &#8211; de toda \u00e1gua doce &#8211; nos rios, lagos e outros ambientes superficiais menores. Tirando as impurezas e aquelas reconhecidamente impr\u00f3prias para o consumo, quer saber qual o percentual dispon\u00edvel que temos para abastecer a sede do mundo? apenas 0,6%. A fobia tem ou n\u00e3o tem sentido?<\/p>\n<p><span style=\"color: #006600;\"><strong>JS &#8211; Pelos n\u00fameros, ent\u00e3o, a coisa \u00e9 mais grave que se imagina&#8230;<\/strong><\/span><br \/>\nProf. POLICARPO &#8211; \u00c9, e pode ficar pior. Tem sido r\u00e1pida a degrada\u00e7\u00e3o da maioria dos nossos ecossistemas aqu\u00e1ticos, principalmente pelo aumento do consumo por causa da expans\u00e3o urbana, comprometimento da qualidade por causa da polui\u00e7\u00e3o e contamina\u00e7\u00e3o dos mananciais, perdas associadas \u00e0 irriga\u00e7\u00e3o, evapora\u00e7\u00e3o e saliniza\u00e7\u00e3o. Paradoxalmente, a sociedade moderna vive numa crescente depend\u00eancia dos ecos sistemas aqu\u00e1ticos e, ao mesmo tempo, contribui diuturnamente para sua degrada\u00e7\u00e3o com lan\u00e7amentos de efluentes dom\u00e9sticos e industriais sem qualquer tipo de tratamento. Parece n\u00e3o preocupar ningu\u00e9m o fato desses mananciais &#8211; que representam o 0,6%, lembra &#8211; servirem de escoadouros para \u00e1guas residuais contaminadas por pesticidas e fertilizantes utilizados na agricultura e na pecu\u00e1ria e at\u00e9 subst\u00e2ncias cancer\u00edgenas oriundas de lan\u00e7amentos de hospitais e cl\u00ednicas de sa\u00fade. Quer um exemplo: um paciente internado com doen\u00e7a grave, contaminosa, n\u00e3o pode usar o mesmo sanit\u00e1rio do seu acompanhante. Mas a rede de esgoto do hospital \u00e9 uma s\u00f3 e qualquer que seja o banheiro, o destino dos dejetos ser\u00e1 sempre o mesmo. Ou seja: um manancial comum a todos n\u00f3s.<\/p>\n<p><span style=\"color: #006600;\"><strong>JS &#8211; Essa preocupa\u00e7\u00e3o com a qualidade e quantidade da \u00e1gua \u00e9 nova?<\/strong><\/span><br \/>\nProf. POLICARPO &#8211; N\u00e3o, embora tenha se acentuada com mais intensidade nos \u00faltimos anos. A luz vermelha s\u00f3 acendeu no in\u00edcio dos anos 90, quando foi diagnosticado que mais de 25% da popula\u00e7\u00e3o mundial n\u00e3o dispunham de meios para suprir as necessidades b\u00e1sicas de comer o suficiente e dispor de \u00e1gua limpa e de condi\u00e7\u00f5es de higiene e saneamento.<\/p>\n<p><span style=\"color: #006600;\"><strong>JS &#8211; Um degelo nos tr\u00f3picos n\u00e3o supriria uma eventual falta de \u00e1gua no mundo?<\/strong><\/span><br \/>\nProf. POLICARPO &#8211; A quest\u00e3o n\u00e3o se restringe a ter ou n\u00e3o ter \u00e1gua. O grande p\u00e2nico da humanidade se deve a incr\u00edvel velocidade com que os ecossistemas aqu\u00e1ticos est\u00e3o se degradando. S\u00e3o Lu\u00eds \u00e9 um exemplo. H\u00e1 30 anos se banhava no rio Anil, no Bacanga e no Paci\u00eancia, de onde, inclusive, saia o abastecimento de \u00e1gua pot\u00e1vel para as nossas torneiras. Hoje todos tr\u00eas s\u00e3o esgotodutos. Mas respondendo a sua pergunta, um degelo nas calotas, dependendo do tamanho, pode resultar em verdadeiras cat\u00e1strofes, uma vez que existe um n\u00edvel para os oceanos e uma eleva\u00e7\u00e3o de cent\u00edmetros pode representar o fim de cidades costeiras em todos os continentes. Mas a id\u00e9ia de tirar \u00e1gua pot\u00e1vel do gelo n\u00e3o \u00e9 absurda. A Ar\u00e1bia Saudita e o Kuwait j\u00e1 se utilizam desse recurso. E fazem isso justamente porque enquanto para n\u00f3s a escassez parece ser uma realidade distante, para eles o problema existe e j\u00e1 \u00e9 bem real.<\/p>\n<p><span style=\"color: #006600;\"><strong>JS &#8211; E a dessaliniza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/span><br \/>\nProf.POLICARPO &#8211; \u00c9 uma alternativa, mas de custo muito alto para pa\u00edses pobres como o Brasil, por exemplo.<\/p>\n<p><span style=\"color: #006600;\"><strong>JS &#8211; Qual o diagn\u00f3stico da \u00e1gua de Ilha de S\u00e3o Lu\u00eds?<\/strong><\/span><br \/>\nProf. POLICARPO &#8211; Est\u00e1 doente. S\u00f3 temos a reserva do Batat\u00e3 e a Bacia do Paci\u00eancia, mesmo assim bastante comprometida, a exemplo do Bacanga e do Rio Anil. Nos resta um grande len\u00e7ol de \u00e1gua subterr\u00e2neo. Hoje, 60 a 65% da \u00e1gua que abastece a capital vem do Italuis. O resto vem dos po\u00e7os e estes, infelizmente, por falta de estudos cient\u00edficos em suas execu\u00e7\u00f5es, j\u00e1 est\u00e3o sofrendo processos de saliniza\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o bastasse, segundo dados levantados pelos ge\u00f3logos que estudam o problema, 60% da \u00e1gua pot\u00e1vel produzida em nossa capital \u00e9 desperdi\u00e7ada.<\/p>\n<p><span style=\"color: #006600;\"><strong>JS \u2013 O Senhor tem n\u00fameros do desperd\u00edcio nacional?<\/strong><\/span><br \/>\nProf. POLICARPO &#8211; Est\u00e1 entre 20 a 22%. Quer dizer, n\u00f3s, em S\u00e3o Lu\u00eds, jogamos fora a \u00e1gua de boa qualidade tr\u00eas vezes mais que o resto do pa\u00eds. Outro problema: a quantidade de esgoto in natura jogado nos rios, assim como toneladas e mais toneladas de lixo, est\u00e3o comprometendo os len\u00e7\u00f3is subterr\u00e2neos. Resumindo: n\u00f3s que j\u00e1 estamos sem \u00e1gua de qualidade na superf\u00edcie, corremos o risco de ficar, tamb\u00e9m, sem \u00e1gua de boa qualidade no sub-s\u00f3lo.<\/p>\n<p><span style=\"color: #006600;\"><strong>JS &#8211; Uma segunda adutora de Italuis j\u00e1 est\u00e1 sendo constru\u00edda. \u00c9 uma sa\u00edda?<\/strong><\/span><br \/>\nProf. POLICARPO &#8211; N\u00e3o \u00e9. Mais uma vez est\u00e3o metendo os p\u00e9s pelas m\u00e3os, pois n\u00e3o est\u00e3o pensando na perman\u00eancia dos estu\u00e1rios. Na minha opini\u00e3o ir\u00e3o comprometer ainda mais o rio Itapecuru e at\u00e9 o Mearim. E n\u00e3o precisava. Bastar combater o desperd\u00edcio.<br \/>\n<strong><span style=\"color: #006600;\"><br \/>\nJS &#8211; N\u00e3o \u00e9 contradit\u00f3rio imaginar que as pessoas que gerenciam essas pol\u00edticas de \u00e1gua e saneamento da nossa capital n\u00e3o saibam disso?<\/span><\/strong><br \/>\nProf. POLICARPO &#8211; O pior que sabem. Antes ainda podiam argumentar que pouco se sabia sobre o assunto. Hoje j\u00e1 n\u00e3o se admite esse tipo de desculpa. Quem permite que se jogue esgoto nesses rios, quem permite que se devaste as matas ciliares, quem permite que se degrade o meio ambiente, est\u00e1 cometendo um crime de lesa humanidade. Por causa da falta de \u00e1gua e saneamento morre uma crian\u00e7a a cada dez segundos no mundo. Al\u00e9m disso, 80% das doen\u00e7as e 30% das mortes ocorrem pelos mesmos motivos. Esse tipo de crime &#8211; e de criminosos &#8211; \u00e9 respons\u00e1vel pelo \u00f3bito de mais de dez milh\u00f5es de pessoas nos cinco continentes a cada ano.<\/p>\n<p><span style=\"color: #006600;\">JS &#8211; Professor, se n\u00e3o tivesse Italuis como estar\u00edamos n\u00f3s?<\/span><br \/>\nProf. POLICARPO &#8211; Muito bem. Bastava ter sido implantado uma pol\u00edtica de preserva\u00e7\u00e3o dos nossos mananciais. Feito isso, n\u00e3o haveria nenhuma necessidade de ir buscar \u00e1gua de t\u00e3o longe para alimentar as nossas necessidades.<\/p>\n<p><span style=\"color: #006600;\"><strong>JS &#8211; Mas a realidade \u00e9 outra. Rios como ltapecuru, Munin, Mearim, Das Bicas e muitos outros est\u00e3o \u00e0 beira da morte. \u00c9 poss\u00edvel reverter tais processos de extin\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/span><br \/>\nProf. POLICARPO &#8211; A primeira coisa \u00e9 fazer um grande trabalho de mobiliza\u00e7\u00e3o social, passando pela preserva\u00e7\u00e3o ambiental e com o comprometimento das institui\u00e7\u00f5es, dos Governos e principalmente das mulheres. Nenhuma pol\u00edtica de preserva\u00e7\u00e3o da \u00e1gua ter\u00e1 sucesso se n\u00e3o houver a colabora\u00e7\u00e3o efetiva da mulher. Essa conclus\u00e3o existe desde 1982, sa\u00edda de uma conven\u00e7\u00e3o mundial realizada em Genebra. \u00c9 a mulher que gerencia toda a pol\u00edtica de \u00e1gua da casa e \u00e9 ela, tamb\u00e9m, que sofre primeiro com a sua falta. Por isso, qualquer iniciativa de preserva\u00e7\u00e3o dos mananciais aqu\u00e1ticos que desejar algum tipo de sucesso, n\u00e3o poder\u00e1 nunca prescindir dessa fundamental e importante colabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professor da Universidade Federal do Maranh\u00e3o e uma das maiores autoridades em \u00e1gua no Estado. \u201cA quest\u00e3o n\u00e3o se resume a ter ou n\u00e3o ter \u00e1gua. O grande p\u00e2nico da humanidade se deve a incr\u00edvel velocidade com que os ecossistemas aqu\u00e1ticos est\u00e3o se degradando. S\u00e3o Lu\u00eds \u00e9 um exemplo. 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